O paradoxo brasileiro: deficiência de vitamina D em um país tropical
O Brasil recebe sol o ano inteiro. Deveria ser o último lugar do mundo com deficiência de vitamina D. E, no entanto, os números contam uma história diferente. Estudos da Fiocruz mostram que brasileiros apresentam deficiência de vitamina D mesmo durante o verão. Em São Paulo, 52,4% da população tem níveis insuficientes. Em Curitiba, 52,1%. Até em Salvador, com sol intenso o ano todo, a insuficiência chega a 47,6%.
Entre idosos, a situação é ainda mais preocupante: 85% dos idosos em São Paulo têm níveis inadequados de vitamina D. Em instituições de longa permanência, esse número ultrapassa 90%.
Por que falta vitamina D se sobra sol?
A resposta está nos hábitos modernos. A vitamina D é sintetizada na pele quando exposta à radiação UVB. Mas a vida urbana contemporânea limita drasticamente essa exposição:
- Trabalho em ambientes fechados: a maioria das pessoas passa o dia inteiro dentro de escritórios, lojas ou veículos. Vidro bloqueia a radiação UVB.
- Uso de protetor solar: fundamental para prevenir câncer de pele, mas um FPS 30 reduz a síntese de vitamina D em mais de 95%.
- Roupas e horário: exposição precisa ser em áreas extensas do corpo (braços e pernas), entre 10h e 15h, sem protetor, por 15 a 20 minutos. Poucas pessoas fazem isso regularmente.
- Pele mais escura: a melanina funciona como filtro solar natural, reduzindo a síntese de vitamina D. Pessoas negras e pardas precisam de mais tempo de exposição.
O que a vitamina D faz no organismo?
A vitamina D não é apenas uma vitamina. Tecnicamente, funciona como um pró-hormônio que participa de centenas de processos biológicos:
- Saúde óssea: essencial para absorção de cálcio e fósforo. Deficiência prolongada leva a osteoporose e osteomalácia.
- Sistema imunológico: modula a resposta imune, tanto inata quanto adaptativa. Deficiência está associada a maior susceptibilidade a infecções respiratórias.
- Saúde muscular: níveis adequados reduzem risco de quedas em idosos por melhorar a função muscular.
- Saúde da pele: participa da diferenciação celular da epiderme, da função de barreira cutânea e de processos anti-inflamatórios. Deficiência pode agravar quadros de dermatite, psoríase e envelhecimento cutâneo.
- Humor e cognição: receptores de vitamina D estão presentes no cérebro. Deficiência está associada a maior risco de depressão e declínio cognitivo.
Suplementação correta: não é só tomar qualquer vitamina D
A suplementação de vitamina D parece simples, mas tem nuances importantes que fazem diferença nos resultados:
- D3 (colecalciferol) vs. D2 (ergocalciferol): a vitamina D3 é mais eficaz em elevar e manter os níveis séricos. Sempre que possível, opte pela D3.
- Veículo oleoso: a vitamina D é lipossolúvel. Suplementos em cápsulas com óleo (softgels) ou gotas em veículo oleoso têm absorção superior às formas em pó seco.
- Dose diária vs. dose semanal: ambas são eficazes, mas a dose diária tende a manter níveis mais estáveis. A SBEM recomenda 400 a 800 UI/dia para manutenção e até 7.000 UI/dia por 2 a 3 meses para correção de deficiência.
- Associação com vitamina K2: quando se suplementa vitamina D em doses mais altas, a vitamina K2 (MK-7) ajuda a direcionar o cálcio para os ossos e evitar depósitos em artérias e tecidos moles.
- Horário: tomar com uma refeição que contenha gordura melhora a absorção.
Quando procurar orientação farmacêutica?
Se você nunca dosou sua vitamina D, esse é um bom ponto de partida. A dosagem sérica de 25-hidroxivitamina D é o exame padrão. Valores abaixo de 20 ng/mL indicam deficiência; entre 20 e 30 ng/mL, insuficiência; acima de 30 ng/mL, suficiência.
A orientação farmacêutica é especialmente importante quando há uso concomitante de medicamentos (alguns fármacos reduzem a absorção de vitamina D), quando há condições clínicas que afetam o metabolismo do cálcio, ou quando a suplementação inicial não está elevando os níveis como esperado. Na consulta farmacêutica, a Dra. Rafaella avalia o contexto completo: exames, medicamentos em uso, estilo de vida e objetivos, para prescrever a dose, a forma farmacêutica e o protocolo mais adequados para você.